Estávamos falando sobre todas as coisas casuais que dois jovens suburbanos falam sentados na calçada com suas camisas
xadrezes nas cinturas, ela com sua blusa do “A Day To Remember” e eu com minha camiseta do ” Space Invaders” que remetia
coincidentemente ao que tínhamos planejado pra aquela manhã.
Ali observamos meu smartphone que ela segurava entre as mãos pequenas e marcadas.
— Hoje é um dia histórico — ela disse me olhando e sorrindo.
— Será quando a gente começou a gostar dessas coisas? — eu perguntei e sorri para ela sem na verdade me importar com
minha própria pergunta, tudo era aquele sorriso agora.
— Poderíamos um dia ter o controle do tempo — continuei falando, mas ela me interrompeu como fazia quando falava de-
mais.
— Nos buracos negros, não existe tempo e espaço. Lá pode ser o fim, e o começo de tudo. O horizonte de eventos — me falou
com seu ar de sabedoria e aprofundamento nas teorias de Einstein a Stephen Hawking.
— Se eu pudesse um dia ir perto de um horizonte de eventos eu sabia bem pra que dia e aonde eu gostaria de voltar. (Se for
possível voltar como imaginamos).
Nessa hora minha expressão começou a se desfazer da alegria para a decepção, e uma lágrima escorreu do meu rosto.
— Você fez o melhor que pode — ela falou enquanto no celular a conferência ao vivo pelo you tube mostrava o primeiro regis-
tro de uma foto de um buraco negro a anos luz de distância, algo único e inédito após tantas eras desde os estudos com o primeiro
telescópio, até desde Galileu Galilei.
Era como se fosse o novo e o velho se chocando. Tudo o que pode acontecer no antes e depois. Aquilo parecia mais profundamente sentimental que qualquer poesia. Era radiante pra nós
dois.
— Eu posso te fazer melhor.
— Eu sei que pode.
Este texto faz parte de minha obra publicada este ano pela Editora Porto de Lenha. Contos e Poemas Inevitáveis.